Prosa furada
- Toca uma música.
- Qual música?
- Uma que ouço agora.
- Ouviste antes?
- Não sei, um dia.
- Quem canta?
- Não estou certo.
Ora parece fina como uma dama rouca.
Ora grossa qual um homem rouco.
- Que te lembras?
- Alguém, ninguém ao certo.
Alguém...
- Mas... só?
- Também é boa a música.
Também parece sinfonia passaral.
Ou instrumental.
- Quem saberá?
Tu?
- Talvez, mas não com certeza.
Não com coragem.
.........................
(silêncio)
.........................
- Toca uma música.
- De novo?
- Não agora outra.
- Também rouca?
- Não, agora brava.
- É briga?
- Não, só musica.
Só lamento.
- Lamento?
- Sim, só dor.
- Quem canta a dor?
- Eu mesmo.
- Tua?
- Não, do mundo.
- Qual dor?
- Não sei, apenas dói
E canto.
- Por que então?
- Pra poder chorar
E lavar a alma.
- Tirar o pó...
Entendo!
.........................
(silêncio)
..........................
- Toca uma música.
- Posso ouvir agora.
- Podes?
- Sou eu mesmo que canto.
- Por quê?
- Pra que chores por mim.
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